A marcante personagem Tracy, do romance Se Houver Amanhã de Sidney Sheldon, é a protagonista dessa triste e emocionante história que marcou igualmente a vida de milhares de pessoas, que sofreram interferência na carreira profissional, depois de impactos existenciais que as tornaram discriminadas na porta de entrada de muitas organizações, no momento do recrutamento e seleção.
Tracy é uma jovem idealista, que trabalha num banco de renome e está noiva do socialite Charles Stanhope III. Custa a crer na sorte que tem e está radiante de felicidade. Porém, o suicídio de sua mãe muda repentinamente seu destino. Ela resolve tirar satisfação com o mafioso que fica com a herança materna e se vê envolvida numa armação criminosa que a leva a ser presa e condenada por roubo e tentativa de homicídio, em cadeia de segurança máxima por 15 anos. Na prisão, ela tenta continuar o relacionamento com o noivo, que mesmo sabendo que ela está grávida, despreza-a e a abandona sem sequer tentar ouvi-la para entender o que aconteceu.
No ambiente penitenciário, ela se vê cercada por criminosas violentas, como jamais imaginou existir e, ao ser estuprada e violentada por elas, perde o bebê. A partir daí começa a enxergar sua nova realidade: percebe que o mundo que conhecia não existia mais, a mãe maravilhosa e carinhosa estava morta, o noivo perfeito não a queria, perdera o emprego no banco – o que lhe garantia satisfação e reconhecimento. Ela passa a fazer nova leitura da vida, acreditando que o mundo conspirava contra ela. Entretanto, sabia que somente a ela cabia reverter essa desastrosa situação.
Aos poucos consegue impor sua posição dentro da cela e conquista a amizade e respeito da chefe de suas companheiras. O bom comportamento na prisão fez com que ela fosse indicada para cuidar da filha do diretor do presídio. Um belo dia, quando se preparava para fugir, a criança, de quem cuidava, cai nas águas profundas de um lago e ela a salva. O reconhecimento por sua coragem e o apego à criança fazem com que ela ganhe o perdão e a liberdade tão almejada. Porém, o caso chamou a atenção da mídia, que a tornou publicamente conhecida pelo seu ato de coragem.
Uma vez de volta ao chamado “mundo civilizado”, ela tenta recomeçar a vida e, inocentemente busca seu antigo emprego. Claro que não consegue o antigo nem nenhum outro, porque além de sua imagem pública ter sido marcada pela mídia, sua ficha criminal a precedia e nenhuma empresa se arriscaria a lhe dar emprego. Após incessante e exaustiva procura, alguém lhe indica uma pessoa, dono de joalheria, que costuma oferecer ajuda a ex-presidiária, ela o procura em vão, pois o que ele lhe propõe é que se torne ladra profissional.
Embora a história seja um romance fictício, durante minha carreira profissional, já estive a par de várias situações como esta, que, infelizmente, podem ocorrer com freqüência nas organizações, onde é comum a prática de discriminação contra trabalhadores com restrições na vida pregressa.
Recentemente, uma grande empresa de destaque no segmento de seleção de pessoal foi condenada pela Justiça do Trabalho devido à prática de pesquisar antecedentes criminais, ações trabalhistas dos candidatos a emprego, e até sua condição econômico-financeira, com base em cheques devolvidos ou em títulos protestados com registro no SERASA.
No entanto, a justiça prescreve que a organização deve proceder à consulta cujo intuito seja apenas verificar a idoneidade de clientes (futuros devedores) e não de candidatos a empregos, que, na verdade, são credores de salários. Segundo o TRT, se um candidato a uma vaga de emprego tem dívidas, isso não pode ser fator impeditivo da contratação. Ao contrário, somente com a obtenção de trabalho é que lhe será possível saldar as dívidas.
O que mais se pretende com esse relato é colaborar com profissionais que atuam com recrutamento e seleção, a fim de que fiquem atentos não com o fato em si, mas com o sentido de se solidarizar com quem, às vezes injustamente, sofre discriminação em processo seletivo, seja por ter de saldar dívidas ou ter cometido algum tipo de deslize. O que se sugere é que pelo menos se dê a oportunidade de ouvir o candidato e entender o que está acontecendo. Não que necessariamente tenha de contratá-lo, mas pelo menos se propor a um trabalho de orientação, para que ele sinta fazer parte integrante do mundo dito “civilizado”.
Diante de semelhantes casos, convém refletir que, em vez de darmos as mãos a quem delas naquele momento necessita, inconscientemente agimos de modo que essa pessoa escolha novamente caminhos indesejáveis.
Fonte: Lidera Online